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Cultura

Com 90 mil músicas de IA lançadas por dia, produtor questiona o que ainda separa um artista de uma máquina

Ainda dá para ganhar dinheiro produzindo música? DJ explica como o excesso de lançamentos mudou a disputa por público e…

31 jul 2026 às 10h06 | Redação

Foto: JESTFLY @jestfly.co | Deezer | CO ASSESSORIA

A inteligência artificial já produz música em uma velocidade maior do que o público consegue consumir. Em junho de 2026, a Deezer recebeu cerca de 90 mil faixas totalmente geradas por IA por dia, volume que chegou a representar mais de 50% dos novos conteúdos enviados à plataforma. Apesar da quantidade, essas músicas responderam por apenas uma pequena parcela das reproduções. O contraste mostra que publicar uma faixa ficou mais simples, mas conquistar atenção, gerar receita e transformar um lançamento em carreira continua sendo o verdadeiro desafio.

Para o DJ e produtor musical JESTFLY, nome artístico de Diego Spy, o excesso de oferta tornou o mercado ainda mais competitivo. “Hoje qualquer pessoa consegue gerar dezenas de músicas em pouco tempo. Isso enche os catálogos, mas não significa que existam mais oportunidades. Produzir música nunca foi tão fácil, mas viver dela ficou ainda mais difícil. O problema não é colocar uma faixa no ar. É fazer alguém parar, ouvir, lembrar de você e voltar para o próximo lançamento”, afirma.

O crescimento das faixas sintéticas também ampliou a discussão sobre royalties e fraude no streaming. Plataformas passaram a desenvolver sistemas para identificar conteúdos totalmente gerados por IA, enquanto a indústria tenta impedir que músicas produzidas em massa sejam usadas para alimentar reproduções artificiais e disputar remuneração com artistas, compositores e produtores. Em um catálogo cada vez mais congestionado, estar disponível deixou de significar ser descoberto.

Ao mesmo tempo, a redução dos custos de produção não eliminou as despesas de uma carreira. Divulgação, distribuição, equipe, identidade visual, apresentações e construção de público continuam exigindo investimento. A inteligência artificial pode acelerar etapas do processo criativo, mas não resolve o principal obstáculo de quem vive de música: transformar atenção passageira em uma audiência que acompanhe o artista e gere receita de forma consistente.

JESTFLY acredita que é justamente nesse ponto que aparece a diferença entre uma faixa gerada e uma carreira artística. Para ele, a tecnologia consegue combinar referências e reproduzir fórmulas, mas não constrói sozinha uma relação com o público. “Uma máquina pode entregar uma música tecnicamente correta, mas não tem uma trajetória, uma intenção ou uma história para colocar nela. Hoje, com tanta coisa sendo lançada, o verdadeiro valor está em criar algo que as pessoas reconheçam como seu antes mesmo de ler o nome do artista. É isso que ainda transforma música em carreira”, conclui.