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Cultura

A música está ficando previsível? Entenda o papel do algoritmo na descoberta de novos artistas

“O algoritmo abriu portas para artistas independentes, mas também criou uma pressão para que a música nasça dentro de fórmulas…

21 ago 2026 às 14h12 | Redação

Foto: @jestfly.co | CO Assessoria

Uma música nova pode chegar hoje pelo trecho de um vídeo, entrar em uma playlist automática ou aparecer por poucos segundos no feed. Muitas vezes, começa a circular antes mesmo de o público saber quem está cantando. A descoberta musical ficou mais rápida e fragmentada, enquanto as plataformas aprendem o que cada pessoa escuta, repete, salva ou simplesmente pula.

Para o DJ e produtor musical JESTFLY, essa transformação abriu caminhos que antes dependiam muito mais das grandes estruturas da indústria, mas também levou uma nova pressão para dentro do estúdio. “Hoje um artista independente pode chegar a alguém do outro lado do mundo sem que essa pessoa tenha procurado por ele. Isso é muito poderoso. Ao mesmo tempo, você começa a perceber quais trechos prendem atenção, o que circula e o que as pessoas pulam. O risco é começar a criar já pensando nessa resposta.”

Um trecho pode viralizar antes da faixa completa, ganhar milhares de vídeos e acabar se tornando a primeira referência que o público tem de um artista. Às vezes, poucos segundos passam a ter vida própria fora da canção. Não existe uma fórmula obrigatória para o sucesso, mas existe uma indústria cada vez mais atenta ao instante capaz de interromper o scroll e transformar curiosidade em play.

E encontrar um nome desconhecido não significa necessariamente chegar a um som igualmente desconhecido. Uma pesquisa publicada na Scientific Reports, baseada no comportamento de cerca de 50 mil usuários da Deezer, identificou que recomendações algorítmicas podem aumentar o contato com novos artistas enquanto mantêm parte dessas descobertas próxima dos estilos que o ouvinte já costuma consumir. Muda quem está tocando, mas nem sempre muda o território musical.

Em 2025, o streaming respondeu por 69,6% da receita mundial da música gravada. Com milhões de faixas disputando o mesmo ouvinte, ser lançado deixou de ser suficiente. Existe uma corrida para ser encontrado, não ser pulado e continuar circulando. E, quanto melhor artistas e gravadoras entendem esse ambiente, mais tênue fica a fronteira entre saber como uma música será descoberta e deixar essa descoberta interferir na maneira como ela é criada.

JESTFLY vê justamente aí o limite. “Não vejo o algoritmo como inimigo. Ele pode fazer uma música chegar muito mais longe. O problema começa quando entender como ela circula passa a determinar como ela nasce. Descoberta precisa ter surpresa. Se todo mundo tentar soar familiar desde o primeiro segundo, podemos ter cada vez mais artistas novos aparecendo e cada vez menos coisas realmente novas sendo ouvidas.”