Bela Rabelo lança “Onde o Asfalto Termina” e assume raízes de MS como identidade artística
“Onde o Asfalto Termina” chega às plataformas nesta sexta-feira (4), acompanhada de videoclipe que retrata o reencontro da cantora com…
Existe um lugar onde o asfalto termina, o celular perde a urgência, o relógio deixa de ditar o ritmo e o silêncio começa a dizer aquilo que, muitas vezes, a cidade não permite ouvir. É nesse território de natureza, memória e pertencimento que Bela Rabelo encontra a inspiração para sua nova fase artística.
A cantora sul-mato-grossense lança nesta sexta-feira (4) “Onde o Asfalto Termina”, música que chega às plataformas digitais acompanhada de um videoclipe. Mais do que uma volta à fazenda, a produção representa, para Bela, uma volta para dentro de si mesma, às suas raízes, à sua identidade e às coisas simples que ajudaram a formar quem ela é.
No videoclipe, a cidade não aparece. Ela está presente apenas nos vestígios que Bela leva consigo: o sapato, o relógio, o celular e a mala ainda fechada. Aos poucos, esses elementos perdem espaço diante da natureza e de uma rotina mais desacelerada. O celular deixa de ser ferramenta de trabalho e vira câmera; o relógio descarrega; e, simbolicamente, Bela também começa a “descarregar” as pressões e urgências da vida urbana.
“Quando saímos da cidade para o mato, na primeira noite ainda os barulhos do carro estão presentes no ouvido. O celular, o relógio, tudo precisa estar carregado e pronto para responder na hora. Só que lá isso não tem mais sentido. O celular acaba virando máquina fotográfica, o relógio descarrega e a gente vai descarregando junto”, explica a cantora.
A experiência retratada no clipe dialoga diretamente com a história da artista, que passou parte da vida longe de Mato Grosso do Sul, mas afirma nunca ter deixado o Estado para trás. Para Bela, o sertão, o interior, os animais, a calmaria e os hábitos simples permanecem como elementos inseparáveis de sua personalidade.
“No meu jeito de ser, o sertão, o interior, o gosto pelas coisas simples da vida, o chá de cidreira antes de deitar, os animais, a calmaria que eu sempre carregarei no jeito de falar e de andar nunca saíram de MS. Sabe a concha que, mesmo longe do mar, no deserto, carrega o som do mar? Assim sou eu”, afirma.
É justamente essa identidade que Bela busca colocar no centro de sua música. Depois de interpretar trabalhos que, segundo ela, nem sempre refletiam sua personalidade, a artista assume agora maior protagonismo nas escolhas que envolvem sua produção.
“Sou uma artista que já gravou outras músicas com letras distantes do meu jeito de ser, e isso me incomodou bastante, porque o produtor escolhe e você grava. Dessa vez sou eu mesma, sem meias palavras. Eu sou uma pessoa caseira, gosto de ficar no mato, escrever sentada em uma mesa de madeira. Eu sou mansa como um rio”, revela.
A fazenda, nesse contexto, deixa de ser apenas um cenário. Ela representa uma espécie de casa emocional, um espaço onde Bela consegue respirar e reencontrar uma versão de si mesma que nunca deixou de existir.
“A fazenda é essa volta no tempo, a volta pra casa, onde lá consigo respirar. Morei muito tempo fora do MS. Embora levasse o meu Estado nas músicas e na alma, eu não estava respirando o mesmo ar dele. Quantas vezes, ao chegar aqui, eu abria a janela da camionete na estrada de chão e gritava: ‘Pode respirar, coração! Trocar o ar, pulmão!’”, conta, com bom humor.
Uma nova identidade artística
“Onde o Asfalto Termina” também marca a construção de um território artístico cada vez mais ligado à natureza, às raízes, à identidade regional e a uma leitura sensível do interior brasileiro.
Nesse caminho, Bela reconhece a importância de artistas que ajudaram a levar a cultura de Mato Grosso do Sul para além das fronteiras do Estado. Entre suas principais referências está Almir Sater, com quem teve contato durante sua participação na novela “Ana Raio e Zé Trovão”, da extinta Manchete.
“Eu desejo ocupar o lugar de uma artista que seja reconhecida pela tradição pantaneira, assim como Almir leva nosso Pantanal para o mundo. Eu estive muito perto do Almir Sater quando participei de ‘Ana Raio e Zé Trovão’, e ele se tornou uma referência para mim, musicalmente falando, como artista e como ser humano”, afirma.
Para Bela, a referência não está em reproduzir o trabalho de outro artista, mas em compartilhar a mesma compreensão de que a cultura e a identidade de uma região podem se transformar em linguagem universal.
“Ele é um homem calmo, sem muitas palavras e que fala muito quando canta. Quem canta é o coração. Quero cantar o que acredito e vivo e viver um pouco da minha Terra seja onde eu estiver, no Brasil ou fora dele”, destaca.
Composição de Rodrigo Zup, Douglas Paixão, Vini Souza, Tânia Viana e Mafê Borges, “Onde o Asfalto Termina” chega como uma espécie de manifesto pessoal de Bela Rabelo, uma música sobre pertencimento, memória e a força que existe em reconhecer de onde se veio.
Campo-grandense, Bela Rabelo é uma figura singular no cenário cultural brasileiro. Filósofa e advogada de formação, escritora, cantora e comunicadora, construiu sua trajetória na intersecção entre arte, espiritualidade e acompanhamento humano. Agora, amplia esse percurso ao transformar em música uma experiência profundamente pessoal: a descoberta de que voltar para casa também pode significar voltar para si.
A mensagem que Bela deseja deixar com o novo trabalho é justamente essa: não importa o quanto a vida leve alguém para longe; as raízes continuam carregando a força do lugar de onde nasceu.
“Escolha sempre voltar para casa, para dentro de si mesmo. Olhe para suas raízes, elas carregam a força do seu nascimento. Cuide delas. Tem vozes de pessoas que amamos que nunca mais vamos ouvir, mas quando voltamos para ‘casa’, fechamos os olhos, respiramos, ouvimos um som, um relinchar do cavalo no pasto, um cheirinho de chá, e aquela voz volta a falar no coração. Onde o asfalto termina é esse cheiro de vida limpa e inocente que me fez ser a Bela de hoje”, finaliza.