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Política

Câmara de Campo Grande banca salários de até R$ 10 mil para músicos

Editorial desta quarta-feira (18)

18 mar 2026 às 09h49 | Redação

Foto: CMCG

O contribuinte de Campo Grande trabalha duro, paga seus impostos e, em troca, espera o mínimo: respeito. Mas o que se vê, mais uma vez, é o velho roteiro da política brasileira sendo encenado sem qualquer constrangimento, agora, dentro da Câmara Municipal de Campo Grande.

E o mais grave: tudo isso está escancarado, disponível para qualquer cidadão consultar no Portal da Transparência da própria Câmara.

Os números falam por si. Um integrante de grupo de pagode, nomeado em gabinete parlamentar, recebeu em fevereiro de 2026 mais de R$ 7 mil líquidos. Proventos de R$ 9.900,47, descontos de R$ 2.255,25, resultando em R$ 7.645,22 no bolso. Outro músico, também nomeado, ultrapassa a casa dos R$ 10 mil em proventos, com líquido próximo de R$ 8 mil.

E não são casos isolados.

Há de tudo nos gabinetes: pagodeiros, sertanejos, jogadores de futebol, profissionais sem qualquer vínculo técnico com a atividade legislativa. Não se trata de desmerecer profissões — o ponto é outro: qual a qualificação dessas pessoas para exercer função pública? Qual o critério para essas nomeações? Qual o retorno prático para a população?

A resposta, infelizmente, parece óbvia.

Enquanto isso, o cidadão comum enfrenta filas na saúde, ruas esburacadas e serviços públicos que deixam a desejar. A conta não fecha. E nunca fecha quando o dinheiro público vira moeda de troca política.

O mais preocupante é o contraste. Nas redes sociais, muitos parlamentares se vendem como “fiscalizadores rigorosos”, defensores da moralidade e guardiões do dinheiro público. Na prática, porém, mantêm dentro dos próprios gabinetes uma estrutura que levanta sérias dúvidas sobre compromisso, mérito e responsabilidade.

É a institucionalização do improviso.

É a banalização do dinheiro público.

E tudo isso com salários elevados e jornadas que, muitas vezes, não ultrapassam o expediente das 7h às 13h.

Não se trata apenas de legalidade — porque muitas dessas nomeações podem, sim, estar dentro da lei. Trata-se de moralidade, de respeito com quem paga a conta e de compromisso com a função pública.

Os dados estão ali, públicos, acessíveis, oficiais. Não há o que esconder, e ainda assim, falta explicação.

Campo Grande não pode naturalizar esse tipo de prática.

A política precisa, urgentemente, reencontrar o seu propósito. Caso contrário, seguirá distante da população, não por falta de discurso, mas por excesso de incoerência.