EDITORIAL: A Câmara de Vereadores de Campo Grande que assiste à crise, mas não age
Artigo do Blog do Bulhões
O transporte coletivo de Campo Grande caminha novamente para o colapso, mais uma vez, a Câmara Municipal demonstra a mesma postura que tem marcado sua atuação nos últimos anos: reage, mas não age; comenta, mas não resolve; observa, mas não governa.
O novo capítulo da crise, relatado pelo Jornal Correio do Estado, expõe um cenário alarmante. O Consórcio Guaicurus afirma que não tem condições financeiras nem para pagar a folha salarial, nem o 13º dos trabalhadores. Se nada mudar, a Capital pode viver outra paralisação dos ônibus, a segunda em menos de 45 dias, justamente às vésperas das festas de fim de ano. A rotina do campo-grandense, que depende quase exclusivamente do transporte público, segue sendo refém de disputas, desorganização e falta de planejamento.
É evidente que há responsabilidades distribuídas entre prefeitura, consórcio e até o governo estadual, que rebateu parte das acusações. Porém, em meio a esse quadro, a Câmara de Vereadores, instituição que deveria fiscalizar, propor e agir de forma firme — segue se contentando com discursos e notas de indignação.
Em outubro, quando motoristas cruzaram os braços após atraso no pagamento do vale, o presidente da Câmara chegou a expor números preocupantes sobre repasses atrasados. De acordo com informações citadas pelo Correio do Estado, a dívida do Estado, à época, chegava a pouco mais de R$ 6 milhões, enquanto a da prefeitura ultrapassava R$ 3 milhões. Ainda assim, a resposta do Legislativo municipal ficou apenas no campo das declarações.
A criação do Fundo Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (FMMUT), proposta que poderia, ao menos no papel, evitar crises recorrentes continua aguardando votação. A Câmara anuncia, apresenta, debate, mas não vota. O projeto está parado, e enquanto isso o sistema segue andando no fio da navalha.
A pergunta que fica é simples: de que adianta a Câmara levantar dados, dar entrevistas e declarar preocupação, se não exerce sua função primordial? A crise atual não é episódica. O transporte de Campo Grande já paralisou quatro vezes nos últimos seis anos, sempre por motivos semelhantes. Não se trata de algo inesperado, trata-se de um problema estrutural que exige enfrentamento político de verdade.
O cidadão não pode continuar vivendo sob ameaça constante de paralisações. Os trabalhadores do transporte não podem depender da sorte para saber se receberão seus salários. E a cidade não pode aceitar que sua mobilidade seja tratada como um jogo de empurra.
Enquanto a Câmara permanecer no conforto da retórica, Campo Grande continuará vulnerável. Fiscalizar não é apenas apontar atrasos em repasses; é cobrar responsabilidade, exigir transparência, instaurar comissões se necessário, pressionar Executivo e concessionária, e principalmente, votar projetos que podem mudar a realidade.
Uma cidade do porte da nossa não pode ser refém de omissões. A população espera e merece um Legislativo que tome a dianteira, que atue com rigor, que não se esconda atrás de coletivas de imprensa. Campo Grande precisa de ação, não de comentários.
A crise está posta. O Jornal Correio do Estado já mostrou a gravidade. Falta agora que a Câmara faça o que dela se espera: trabalhar.
Fonte utilizada para o editorial do Blog do Bulhões:
https://correiodoestado.com.br/cidades/transporte-coletivo-pode-parar-novamente-neste-fim-de-ano-na-capital/458698/