Editorial: Emha precisa melhorar a comunicação para que a informação chegue a quem mais precisa
Emha avisa no site, mas quem avisa a periferia?
Em tempos de tecnologia, em que praticamente tudo pode ser resolvido com poucos cliques, ainda é preciso discutir uma questão básica na administração pública: a informação está realmente chegando a quem precisa dela?
A convocação de 51 mil moradores inscritos no Cadastro Geral de Habitação de Campo Grande pela Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (Emha) é necessária para atualizar e tornar mais confiável a base de dados. O problema, porém, está na forma como uma medida dessa dimensão chega ao cidadão, especialmente àquele que vive nas regiões mais afastadas e tem menos acesso à informação digital.
Não basta publicar uma portaria, colocar uma relação de nomes no Diogrande e disponibilizar um link no site oficial. Comunicação pública não pode ser feita apenas para quem já acompanha o Diário Oficial, acessa regularmente os canais institucionais ou sabe onde procurar a informação.
Estamos falando de 51 mil pessoas que podem perder definitivamente o cadastro caso não façam a revalidação. É uma consequência séria demais para depender exclusivamente de uma comunicação burocrática.
Para quem mora na periferia, para o idoso que tem dificuldade com tecnologia, para famílias que não possuem acesso constante à internet ou simplesmente para quem não acompanha as redes sociais e os sites da Prefeitura, a informação pode nunca chegar. E quando chega tarde, pode não haver mais tempo para tomar uma providência.
A própria necessidade de oferecer atendimento presencial demonstra que nem todos os cidadãos conseguem resolver tudo pelo meio digital. E aí surge uma pergunta inevitável: por que não ampliar a comunicação para além do site e do atendimento em um único ponto da região central?
A Emha poderia utilizar uma estratégia mais próxima das comunidades, com divulgação nos bairros, unidades de saúde, escolas, CRAS, associações de moradores, terminais de transporte, rádios comunitárias e outros espaços frequentados diariamente pela população. Poderia também investir em campanhas nas redes sociais com linguagem simples, carros de som e ações itinerantes nas regiões mais populosas.
Não se trata de questionar a necessidade de atualizar o cadastro. Pelo contrário. É preciso atualizar, organizar e fiscalizar. Mas também é preciso garantir que o cidadão tenha condições reais de cumprir aquilo que o poder público está exigindo.
Em uma cidade que pretende ser moderna e digital, não podemos transformar a tecnologia em uma barreira. A digitalização dos serviços públicos deve facilitar a vida do cidadão, e não criar uma nova forma de exclusão.
Quando uma família pode perder anos de cadastro por não ter tomado conhecimento de uma convocação, a responsabilidade pela comunicação não pode ser colocada exclusivamente sobre o morador.
A Emha precisa sair do modelo de comunicação que apenas informa e avançar para uma comunicação que alcança, orienta e garante que a mensagem chegue a quem mais precisa.
Porque política habitacional não começa apenas na entrega da casa. Começa também na capacidade do poder público de conversar com quem espera por ela.