Editorial: Enquanto a cidade cobra o presente, vereadores já miram 2027
Editorial desta sexta-feira (17)
A política de Campo Grande parece viver em um fuso próprio, um tempo onde o futuro sempre chega antes do presente ser resolvido. A prova mais recente disso é a tramitação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, entregue pela prefeita Adriane Lopes à Câmara Municipal nesta semana.
Sim, 2027.
Enquanto bairros ainda enfrentam lama quando chove e poeira quando faz sol, enquanto demandas básicas seguem represadas nas periferias, o debate político já começa a se organizar em torno de um orçamento que só ganhará forma daqui a dois anos.
Planejamento ou distanciamento da realidade?
É evidente que o orçamento público exige planejamento. A LDO é, por natureza, uma peça técnica, necessária para organizar metas e prioridades. Mas o problema não está no instrumento, está no político e na desconexão com a realidade.
Quando vereadores passam a discutir cifras bilionárias futuras R$ 7,2 bilhões, com crescimento estimado de pouco mais de 4%, enquanto a população ainda aguarda soluções básicas, o discurso institucional começa a soar distante.
Mais do que números, o que está em jogo é a percepção da população: há uma sensação crescente de que a política está sempre um passo à frente… mas nunca no lugar certo.
Emendas: ferramenta pública ou moeda política?
Outro ponto que merece atenção são as chamadas emendas impositivas — cerca de R$ 830 mil por vereador. Na prática, trata-se de um instrumento legítimo, que pode atender áreas essenciais como saúde, educação e assistência social.
Mas, no ambiente político, também é impossível ignorar seu peso estratégico.
Em um cenário onde cada parlamentar direciona recursos para suas bases, o orçamento deixa de ser apenas planejamento técnico e passa a ser também território de construção política e fortalecimento eleitoral.
Não por acaso, nomes como Epaminondas Neto (Papy), Otávio Trad e outros membros da Comissão de Finanças terão papel central nesse processo. A relatoria da LDO, inclusive, costuma ser mais do que uma função técnica, é espaço de articulação.
A cidade que espera
Enquanto isso, do lado de fora da Câmara, a realidade segue mais simples — e mais urgente.
São mais de mil quilômetros de vias sem asfalto, segundo dados apresentados. São bairros inteiros ainda aguardando infraestrutura básica. São demandas que não cabem em projeções futuras, mas exigem resposta imediata.
A promessa de investimentos em pavimentação, drenagem e infraestrutura aparece novamente como prioridade. Mas a população já aprendeu a diferença entre anúncio e execução.
O risco da política antecipada
Quando o debate político começa a olhar demais para frente, corre-se o risco de esquecer o agora.
E é exatamente esse o ponto de alerta: discutir 2027 sem resolver 2026 pode parecer estratégia, mas também pode soar como fuga.
Planejar é necessário. Antecipar cenários faz parte da gestão.
Mas governar e legislar, exige presença no tempo presente.
Porque, no fim das contas, o eleitor não vive de projeção orçamentária.
Ele vive de rua asfaltada, posto de saúde funcionando e resposta concreta.
E isso não pode esperar até 2027.