Entre jogadores, cantores e influencers: Câmara de Campo Grande se transforma em cabide de emprego
Editorial desta segunda-feira (01)
A Câmara Municipal de Campo Grande, que deveria ser a casa do povo e o principal instrumento de fiscalização do Executivo, parece caminhar para se transformar em um grande cabide de empregos.
O que se vê nos bastidores e nas publicações oficiais são nomeações que causam, no mínimo, perplexidade. Entre os assessores parlamentares há jogadores de futebol, cantor de grupo de pagode e até influencer digital. Não se trata de preconceito com profissão alguma, toda atividade digna merece respeito. O problema é outro: qual a qualificação técnica dessas pessoas para atuar diretamente na formulação de políticas públicas, na análise de projetos de lei e na orientação legislativa?
Boa parte desses nomeados não possui histórico de atuação política, conhecimento técnico ou experiência administrativa que justifique ocupar cargos estratégicos dentro dos gabinetes. Pior: há relatos de que alguns sequer cumprem expediente regularmente. Se confirmadas, essas situações configuram um desrespeito ao contribuinte, que banca cada salário pago.
Enquanto isso, a cidade vive um cenário preocupante. Fornecedores da Prefeitura relatam atrasos nos pagamentos. Nos postos de saúde, falta remédio, a previsão é de reposição apenas em abril. Pacientes aguardam exames que não são agendados por falta de insumos nos laboratórios. A população sofre na ponta, enquanto a Câmara parece distante das prioridades reais.
Onde estão os vereadores que deveriam fiscalizar o Executivo? Onde está a atuação firme diante do caos na saúde e do financeiro que atinge serviços essenciais?
Para agravar o cenário, ainda há subsecretário citado em escândalo envolvendo estupro vulnerável, o que aprofunda a crise moral e administrativa que atravessa a gestão pública. A sensação é de descontrole, de falta de rumo e, principalmente, de ausência de compromisso com a população.
A Câmara não pode ser extensão de campanha eleitoral, nem espaço para acomodar aliados, amigos ou figuras conhecidas nas redes sociais. O mandato é público. O dinheiro é público. A responsabilidade é pública.
Está na hora do Ministério Público de Mato Grosso do Sul bater à porta da Câmara Municipal para verificar critérios de nomeação, frequência e efetiva prestação de serviço dos assessores parlamentares. Transparência não é favor, é obrigação.
Campo Grande não pode continuar assistindo à deterioração dos serviços básicos enquanto a política se ocupa de interesses particulares. A população merece respeito, seriedade e, sobretudo, vereadores comprometidos com fiscalização e resultados concretos.
Até quando a Capital vai aceitar que a política funcione como abrigo para conveniências pessoais enquanto a cidade enfrenta falta de remédios, atraso em exames e insegurança institucional?