No ônibus, dorme uma moça
Artigo do jornalista André Farinha
No ônibus, transformou a janela em um travesseiro. Não se importou com o que os
demais passageiros iriam comentar, tão pouco se acabaria como meme numa rede
social qualquer. Entregou-se ao sono, ainda que por poucos minutos.
Tinha motivos para evitar o confronto, queria viver um clipe musical embalado pela
canção que tocava no seu fone de ouvido. Suspirava, sorrindo, longe [mentalmente],
enquanto ignorava os tremidos da janela provocados pelo andar do coletivo.
O vento brincava com seus cabelos, mas não houve a ousadia de desarrumá-lo.
Não tinha um que atravessasse a catraca e não reparasse na inocente que dormia
no banco do ônibus. Tão logo despertou, naquela inexplicável magia de não perder
o ponto.
Exibiu os castanhos claros dos seus olhos enquanto avançava até a porta do
desembarque. Carregava no ombro uma mochila e na cabeça os pensamentos,
metas para o futuro e talvez a esperança de encontrar um grande amor.
Na despedida do quadro, deslizou uma das mãos sobre uma mexa de cabelo, fitou
o restante do ônibus repleto de passageiros sentados e entregues às próprias
histórias, e desceu, desaparecendo no triste cinza de uma calçada.
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