“Se um artista explodir nacionalmente, precisa levar os outros junto”, defende Max Santana
Produtor musical e empresário defende mais incentivo, união entre artistas e ações para recuperar o protagonismo que Capital já teve…
Há mais de 15 anos vivendo a música em diferentes posições, o campo-grandense Max Santana, 40 anos, conhece o mercado artístico dos dois lados do palco. Começou aos 14 anos como baterista ao lado do pai e, desde então, construiu uma trajetória que passou pela produção musical, composição, gestão de carreira, eventos e audiovisual.
À frente da MS Music, Max acompanhou de perto o surgimento e a transformação de artistas, inclusive nomes que posteriormente alcançaram projeção nacional. A experiência também lhe deu uma visão crítica sobre os caminhos escolhidos por quem tenta sobreviver no competitivo mercado da música. Para ele, identidade artística não pode ser sacrificada em nome de uma tendência passageira, e o sucesso não acontece sem planejamento, paciência e construção.

Mas é quando o assunto chega aos bastidores das relações profissionais que a conversa ganha um tom mais contundente. Max admite que a ingratidão já lhe fez muito mal, mas afirma que hoje enxerga essas experiências de outra maneira. Sem esperar reconhecimento, diz que prefere continuar abrindo portas para novos talentos, inclusive com a esperança de descobrir o próximo grande nome da música.
Em uma conversa franca com o Blog do Bulhões, o produtor fala sobre carreira, composição, novos artistas, redes sociais, mercado musical, a relação entre artistas e profissionais dos bastidores e faz uma reflexão provocativa sobre quem chega ao sucesso e esquece de onde veio.
JHOSEFF BULHÕES– Você começou muito jovem, aos 14 anos, tocando ao lado do seu pai. O que aquele Max adolescente aprendeu sobre música e sobre o comportamento dos artistas que ainda influencia a maneira como você trabalha hoje?
MAX SANTANA– Que além da musica levar alegria e entretenimento para as pessoas ela nos ensina a ter reponsabilidade e caráter e o principal quando estamos no palco somos uma atração artística e quando descemos dele precisamos ser a mesma pessoa que ali estava e não ser apenas um personagem.
JHOSEFF BULHÕES –Você acompanhou de perto artistas em momentos muito diferentes de suas carreiras, inclusive nomes que depois ganharam projeção nacional. Existe alguma característica que você considera determinante para um artista realmente conseguir permanecer e crescer no mercado?
MAX SANTANA– Sim a principal característica é sem duvida a personalidade e a identidade vocal e musical, o artista não pode perder sua identidade por conta do momento que a música está vivendo, exemplo: trocar o estilo musical dele pra tentar acompanhar o mercado, isso pode impactar diretamente em seu publico que te fez chegar até onde está. Arriscar faz parte do processo, o que não dá é persistir no erro, com isso o artista vai desgastando o escritório e suas receitas caem bruscamente. Dos artistas que já passaram por aqui poucos ainda sobrevivem com seus estilos, ajudamos a criar identidade musical e até mesmo vocal, outros se perderam no meio do caminho tentando acompanhar o mercado e não foram bem aceitos.
Sendo assim, não perder a sua essência.

JHOSEFF BULHÕES – Além de produtor, você também é compositor e já teve músicas gravadas por outros artistas. Quando você compõe, pensa primeiro na história que quer contar ou já imagina quem poderia interpretar aquela música?
MAX SANTANA– Quase todo compositor já escreve sua musica pensando em um artista, a composição hoje é baseada em momento. Gosto muito das musicas antigas elas nos trás uma história que muitas vezes eram reais. Gosto também de ouvir história dos amigos e bolar um tema para compor, confesso que não gosto de compor sozinho, sempre busco um ou dois pra compor junto.
JHOSEFF BULHÕES -Hoje você também trabalha com desenvolvimento e mentoria de novos talentos. Qual é o erro que você mais encontra nos artistas que estão começando e que, muitas vezes, pode impedir que eles avancem profissionalmente?
MAX SANTANA– Hoje o que eu mais recebo aqui são pessoas que procuram o imediatismo e o hit certo. Sempre explico que o sucesso precisa ser construído, não adianta pular etapas por trás de todo artista tem uma história de como começou e de tudo o que passou para chegar no sucesso. Se ele não passar pelo processo ele não se sustenta na carreira. O que eu vejo muito de quem tá começando a carreira é a falta de planejamento financeiro, tem artistas que tem a graça de tocar ao menos de 10 a 20 shows no mês, sendo barzinho ou festas particulares mais infelizmente ele não consegue se planejar para produzir um material.
Entendo perfeitamente que seu dinheiro já esta contado para as despesas de casa, mais se fizer um planejamento simples e de todo o cachê que receber fazer uma reserva daqui alguns meses já da pra ele começar a fazer algo. Por isso eu sempre tento ajudar de alguma forma, por que todo artista que se tornou grande um dia ele foi pequeno.
JHOSEFF BULHÕES -Depois de tantos anos nos bastidores, você já viveu situações em que ajudou um artista a dar passos importantes na carreira e, depois que ele cresceu, sentiu que todo aquele trabalho foi esquecido. Existe, na sua visão, uma certa ingratidão no meio artístico? Como isso afeta quem trabalha nos bastidores?
MAX SANTANA– Olha isso é uma coisa que já me fez muito mau no passado “ingratidão” hoje eu encaro isso de uma outra forma. Eu entendi que tudo o que já fiz é exatamente o que tinha que ser feito. Não espero mais reconhecimento de ninguém, faço o meu trabalho e entrego tudo nas mãos de Deus ele sim vai me reconhecer. Meu maior foco hoje é descobrir novos talentos e colocar no mercado por isso eu abro as portas para todos por que ali pode surgir um novo Luan Santana. O Maestro Pinocchio disse uma frase esses dias que pegou muita gente aí. “A maioria dos artistas não gosta de lembrar da sua fase pobre”
Eu carrego comigo uma coisa, de o ser melhor para todos e não espere gratidão de todos.

JHOSEFF BULHÕES -O mercado musical mudou muito com as redes sociais, plataformas digitais e a necessidade de o próprio artista produzir conteúdo constantemente. Na sua avaliação, hoje um artista precisa ser necessariamente um bom músico ou também precisa entender de marketing, imagem e estratégia para sobreviver?
MAX SANTANA– Um artista independente precisa sim saber um pouco de tudo, até chegar o momento dele está em um escritório e ali ter profissionais para ajudar. Lembrando, não é porque você conseguiu um escritório que não precisa fazer mais nada. As redes sociais hoje é uma ferramenta que temos 24hrs por dia e de forma gratuita, se não deu engajamento no primeiro, insista até conseguir. O talento pra mim é indiscutível, ele precisa sim estar em primeiro lugar até por que isso é um dom e você não consegue comprar, vem de berço. Sobre a produção de conteúdo para internet eu penso o seguinte, se você canta ou toca sempre faça algo nesse nicho não se deixe perder em outras coisas para confundir a cabeça do público. Ou você é um artista ou é um influencer de outros nichos.
JHOSEFF BULHÕES – Depois de passar pela música, produção de eventos, gestão de carreira e audiovisual, qual é o projeto ou desafio que ainda falta realizar para você sentir que está entrando em uma nova fase da sua trajetória?
MAX SANTANA– Sem duvida nem uma pra mim hoje o meu maior desafio é fazer com que Campo Grande volte a ser o que já foi um dia na musica nacional. Tivemos por muito como a capital da música sertaneja e com o passar do tempo e também por falta de incentivo público perdemos esse status. Tenho conversado com muitos empresários tanto do entretenimento como de outros seguimentos para voltar a incentivar nossos artistas.Também converso com a galera da musica pra gente se abraçar e principalmente se ajudar, fazer com que eles enxerguem seu parceiro de palco como um aliado e não como um inimigo.
Se o artista tal explodiu nacionalmente ele vai participar e até mesmo levar os outros junto com ele.
A nossa cultura precisa muito de atenção, destinar recursos para as coisas certas, ouvir os artistas de toda classe.
A noite campo-grandense precisa voltar a movimentar o mercado, muitas famílias precisam dos seus trabalhos.
Sendo assim nossa capital volta a ser o que já foi um dia.