Chuva em Campo Grande: até quando os mesmos pontos vão continuar alagando?
Editorial deste sábado (05)
A chuva forte que atingiu Campo Grande neste sábado voltou a expor uma velha fragilidade da cidade: a dificuldade de determinados pontos em suportar grandes volumes de água.
Uma reportagem do Jornal Midiamax mostrou a situação na Avenida Gunter Hans, no Coophavila II, onde a enxurrada chegou a interditar completamente a via. Motoristas se arriscaram a atravessar a água, enquanto pedestres ficaram sem passagem.
O episódio, por si só, seria apenas mais uma consequência de um temporal.
O problema é que não é a primeira vez que aquele trecho alaga.
Um morador ouvido pelo Midiamax foi direto ao afirmar: “Aqui sempre alaga”. É justamente essa repetição que deveria tirar o assunto da esfera do imprevisto e colocá-lo na agenda do planejamento público.
Ninguém espera que a Prefeitura consiga impedir uma tempestade. O que se espera de uma cidade é capacidade para enfrentar seus efeitos, sobretudo em áreas onde os problemas já são conhecidos.
Quando um determinado ponto alaga repetidamente, é preciso saber por quê e o que está sendo feito para reduzir o impacto.
A pergunta não é se vai chover novamente.
Vai.
A pergunta é se a cidade estará mais preparada quando isso acontecer.
Campo Grande cresceu, aumentou sua área pavimentada e recebeu novos empreendimentos e moradores. Esse crescimento exige uma infraestrutura de drenagem compatível. Não basta abrir novas vias e ocupar novos espaços; é necessário garantir que a água tenha por onde escoar.
Por isso, os pontos críticos precisam ser tratados com diagnóstico técnico, manutenção e obras quando necessárias. É preciso avaliar a capacidade das galerias, identificar gargalos, verificar estruturas existentes e estabelecer prioridades.
E isso deve ser feito antes do próximo temporal, não durante a emergência.
As imagens de veículos enfrentando a enxurrada impressionam, mas também revelam um risco que não pode ser banalizado. Água acumulada pode esconder buracos, desníveis, bueiros e outros obstáculos. Para motociclistas e pedestres, o perigo é ainda maior.
Orientar a população a não atravessar áreas alagadas é necessário. Garantir que ela não precise se colocar em risco para chegar ao destino é responsabilidade do poder público.
Também não se trata de transformar cada alagamento em argumento político. A intensidade das chuvas é um fator que nenhuma administração controla. Mas a prevenção, a manutenção e o planejamento urbano são decisões humanas.
É aí que está a diferença entre simplesmente reagir a um temporal e administrar uma cidade preparada para ele.
Se moradores conseguem apontar os mesmos locais de alagamento há anos, o poder público também precisa ter esses pontos mapeados, monitorados e incluídos em um plano de intervenção.
Problema conhecido não pode continuar sendo tratado como surpresa.
A chuva deste sábado deve servir como mais um alerta para Campo Grande. Não apenas para a Avenida Gunter Hans, mas para todos os pontos onde a água costuma transformar ruas e avenidas em áreas de risco.
A discussão precisa sair do ciclo previsível de chuva, alagamento, transtorno e espera pela água baixar.
É preciso planejamento de longo prazo, transparência sobre as prioridades e cobrança por resultados.
Porque a população não pode continuar aprendendo, a cada temporal, quais ruas estão preparadas e quais vão desaparecer debaixo d’água.
A chuva é inevitável.
O alagamento recorrente, quando há possibilidade de prevenção, não deveria ser.
E fica a pergunta para quem administra Campo Grande:
até quando os mesmos pontos continuarão alagando sem uma solução definitiva?