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Editorial: Campo Grande não pode esperar, Câmara precisa cobrar respostas e a população exige respeito

Editorial desta quinta-feira

05 nov 2026 às 11h11 | Redação

Foto: Izaias Medeiros

R$ 71,16 milhões sob suspeita de inconsistências na aplicação de recursos da saúde. A Câmara cobra explicações, mas Campo Grande precisa de respostas concretas, transparência e providências que não fiquem apenas no papel.

Campo Grande está cansada. Cansada de uma gestão municipal que acumula questionamentos, de problemas que se arrastam e de uma população que, diariamente, sente na pele as dificuldades de uma cidade que precisa funcionar. Na saúde, onde cada recurso representa atendimento, consulta, exame e tratamento, a falta de esclarecimentos não pode ser tratada como mais um capítulo burocrático da administração da prefeita Adriane Lopes.

O relatório nº 20139 do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS), que aponta inconsistências na execução orçamentária, financeira e contábil de recursos destinados à saúde, trouxe um alerta que exige atenção imediata. A possibilidade de devolução de aproximadamente R$ 71,16 milhões em recursos federais é grave demais para ser tratada com silêncio, respostas superficiais ou explicações que não chegam à população.

É importante deixar claro: o apontamento de inconsistências e a recomendação de devolução não significam, por si só, que houve desvio de recursos ou que a responsabilidade de alguém esteja definitivamente comprovada. Mas é justamente por isso que a Prefeitura precisa apresentar documentos, esclarecer os fatos e demonstrar, com transparência, o que aconteceu com o dinheiro público.

E é nesse momento que a Câmara Municipal de Campo Grande precisa mostrar que seu papel vai muito além de encaminhar ofícios.

O presidente da Câmara, vereador Epaminondas Neto, o Papy, e o presidente da Comissão Permanente de Saúde, vereador Dr. Victor Rocha, assinaram um documento cobrando da prefeita Adriane Lopes e do secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, explicações sobre as inconsistências identificadas. O pedido estabelece prazo de 15 dias para apresentação das informações, comprovações e de um plano de correção das falhas, com indicação dos responsáveis e dos prazos.

A iniciativa é necessária. Entretanto, a população não pode ficar apenas na expectativa de que mais um documento seja encaminhado, recebido e respondido dentro do prazo.

A pergunta que precisa ser feita é: o que acontecerá depois dos 15 dias?

Se a Prefeitura apresentar esclarecimentos insuficientes, quais serão os próximos passos? Se não houver resposta, a Câmara adotará quais medidas? Se as inconsistências permanecerem, haverá convocação dos responsáveis, audiência pública, encaminhamento aos órgãos de controle ou outras providências efetivas?

A sociedade precisa saber que existe uma fiscalização permanente, e não apenas uma cobrança pontual que desaparece depois da repercussão.

O próprio presidente Papy lembrou que o assunto já vinha sendo discutido desde 2024, após cobranças da vereadora Luiza Ribeiro e, posteriormente, do vereador Dr. Lívio. Segundo ele, denúncias foram encaminhadas ao Ministério Público Federal por vereadores, e o problema envolve a falta de comprovação da aplicação dos recursos.

Se esse debate começou há dois anos, a Câmara precisa explicar por que a população ainda aguarda respostas definitivas. A fiscalização não pode ser uma atividade que ganha força somente quando um relatório oficial expõe a dimensão de um problema.

O vereador Dr. Victor Rocha também questionou quais medidas foram adotadas após a notificação e solicitou informações sobre os extratos bancários, a origem dos recursos e o destino dos valores.

São perguntas básicas para quem administra dinheiro público. A população tem o direito de saber onde os recursos foram aplicados, quais despesas foram realizadas, quais documentos comprovam essas movimentações e por que as inconsistências foram identificadas.

O pedido de conciliação entre extratos bancários, registros contábeis e movimentações entre contas é fundamental. Não basta apresentar números isolados. É preciso demonstrar a correspondência entre o dinheiro recebido, o dinheiro movimentado e a finalidade para a qual os recursos foram destinados.

Também é necessário esclarecer quais órgãos receberam o relatório, quais providências foram tomadas e se existe um plano consistente para corrigir as falhas apontadas.

Mas há uma preocupação ainda maior: Campo Grande não pode perder recursos da saúde por falta de organização, comprovação ou capacidade de gestão.

Os R$ 71,16 milhões mencionados no relatório representam um valor expressivo. Em uma cidade onde pacientes enfrentam dificuldades para conseguir consultas especializadas, exames e atendimentos, qualquer risco relacionado aos recursos públicos da saúde exige responsabilidade máxima.

Não se trata de transformar uma auditoria em condenação antecipada. Trata-se de impedir que a falta de esclarecimentos comprometa ainda mais um sistema que já enfrenta dificuldades.

A prefeita Adriane Lopes e o secretário Marcelo Vilela precisam apresentar respostas claras, documentadas e acessíveis. A administração municipal deve explicar as inconsistências, identificar suas causas, demonstrar as providências adotadas e garantir que os recursos destinados à saúde cumpram sua finalidade.

A Câmara, por sua vez, precisa acompanhar cada etapa desse processo.

O prazo de 15 dias deve ser o começo de uma fiscalização mais rigorosa, não o encerramento de uma cobrança. A população precisa acompanhar o que foi respondido, o que ficou pendente e quais medidas serão adotadas diante de eventuais irregularidades comprovadas.

A realização de uma reunião técnica ou audiência pública, com representantes da Sesau, da Secretaria Municipal de Finanças e Planejamento, do Controle Interno e do Conselho Municipal de Saúde, também é uma oportunidade para dar transparência ao caso.

Mas é preciso que essa discussão produza resultados.

Campo Grande não precisa de mais promessas. Precisa de uma administração que responda, de uma Câmara que fiscalize e de órgãos de controle que acompanhem a aplicação dos recursos públicos.

A cidade vive um momento em que a confiança da população na gestão municipal está desgastada. Os campo-grandenses estão cansados de esperar por soluções, cansados de problemas que se repetem e de uma administração que precisa demonstrar, com fatos, que está à altura das responsabilidades que assumiu.

A Câmara Municipal tem a obrigação de transformar a cobrança em ação.

Não basta perguntar. É preciso acompanhar, insistir, fiscalizar e dar publicidade aos resultados. Se os documentos comprovarem a correta aplicação dos recursos, que isso seja esclarecido. Se houver falhas, que sejam corrigidas. Se forem identificadas responsabilidades, que os órgãos competentes adotem as providências cabíveis.

O dinheiro da saúde pertence à população. E a população não pode ser a última a saber o que acontece com ele.

Campo Grande merece respeito. Merece transparência. Merece uma gestão que apresente resultados e uma Câmara Municipal que não permita que questões tão importantes sejam esquecidas nos corredores do poder.

A pergunta que fica para os vereadores é simples: depois do ofício, qual será a próxima cobrança?

Porque, enquanto os documentos circulam, os pacientes continuam esperando.

E Campo Grande não pode mais esperar.