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Editorial: A Câmara comemora números, mas a cidade continua nos buracos

Editorial desta quarta-feira (22)

22 jul 2026 às 18h11 | Redação

Foto: Izaias Medeiros/ CMCG

A Câmara Municipal de Campo Grande resolveu celebrar o balanço do primeiro semestre de 2026 como se os números, por si só, fossem suficientes para comprovar eficiência. São 24.673 indicações, 271 projetos aprovados, dezenas de audiências públicas e sessões solenes. No papel, uma produção volumosa. Nas ruas, entretanto, a realidade continua impondo outro veredito.

O dado que mais chama atenção no relatório não deveria ser motivo de orgulho, mas de constrangimento institucional. Dos quase 25 mil pedidos encaminhados ao Executivo, aproximadamente 9 mil tratam de tapa-buracos. Isso significa que mais de um terço das demandas dos vereadores foi consumido por um problema que jamais deveria ocupar tamanho protagonismo em uma capital.

O número não revela eficiência do Legislativo. Revela o colapso da manutenção urbana. Se foram necessárias 9 mil indicações para cobrar o básico, é porque o básico deixou de ser garantido. Pior: a Câmara apresenta essa estatística como demonstração de trabalho, quando ela simboliza justamente a incapacidade do poder público de oferecer uma resposta definitiva à população.

É evidente que vereadores não executam obras. Sua função constitucional é legislar e fiscalizar. Mas justamente por isso, cabe perguntar: de que adianta protocolar milhares de indicações se os buracos continuam espalhados pelos bairros? A repetição das cobranças acaba transformando o Legislativo em um mero despachante de reclamações populares, incapaz de produzir resultados proporcionais ao tamanho da crise.

A mesma lógica vale para o transporte coletivo. A CPI do Consórcio Guaicurus foi um dos trabalhos mais relevantes da atual legislatura e merece reconhecimento pelo volume de informações produzidas. Entretanto, seria precipitado vendê-la como um caso encerrado. A intervenção decretada pelo Executivo representa apenas o início de um processo. Enquanto passageiros seguem enfrentando ônibus velhos, atrasados e superlotados, qualquer discurso de missão cumprida soa distante da realidade vivida nos pontos de ônibus.

Outro aspecto chama a atenção no balanço apresentado. Entre indicadores legislativos, também aparecem festas, homenagens e sessões solenes como ações de destaque. Não há problema em promover integração social ou reconhecer pessoas e instituições. O problema surge quando esses eventos ocupam espaço semelhante ao destinado à solução dos problemas estruturais da cidade. Campo Grande não precisa de uma Câmara especialista em cerimônias; precisa de uma Câmara implacável na fiscalização.

O relatório insiste em destacar quantidade. Mas a população não vive de estatísticas institucionais. Vive em bairros onde o asfalto cede, espera ônibus que atrasam, enfrenta trânsito prejudicado pela falta de manutenção e convive diariamente com serviços públicos aquém do esperado. O cidadão não contabiliza indicações, audiências ou sessões. Ele contabiliza prejuízos, tempo perdido e promessas não cumpridas.

Há, sem dúvida, vereadores comprometidos com suas atribuições. Também é inegável que a Câmara produziu debates importantes ao longo do semestre. Mas isso não autoriza uma narrativa triunfalista diante de uma cidade que continua enfrentando velhos problemas sem soluções duradouras.

A verdadeira prestação de contas do Legislativo não está nos relatórios distribuídos durante as sessões. Está nas ruas de Campo Grande. E, infelizmente, basta percorrer alguns quilômetros para perceber que a distância entre os números apresentados e a realidade vivida pela população ainda é grande demais.

Uma Câmara que comemora 9 mil pedidos de tapa-buracos talvez esteja comemorando a estatística errada.