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Editorial

Santa Casa em crise: até quando o SUS vai esperar por uma solução?

Editorial desta sexta-feira (04)

04 set 2026 às 10h16 | Redação

Foto: Reprodução/Santa Casa de Campo Grande

A Santa Casa de Campo Grande voltou ao centro de uma crise que já deveria ter sido resolvida. E o mais preocupante não é apenas o tamanho do problema financeiro, mas o fato de que a população que depende do SUS continua sendo colocada no meio dessa disputa.

Falta medicamento. Faltam insumos. Há problemas com gases medicinais, serviços laboratoriais e materiais necessários para procedimentos. O Pronto-Socorro enfrenta superlotação e existe o risco de interrupção de serviços essenciais.

Não estamos falando de uma empresa qualquer.

Estamos falando de um dos principais hospitais de Mato Grosso do Sul e de uma instituição que presta serviços fundamentais para o Sistema Único de Saúde.

O Ministério Público Estadual já precisou entrar na Justiça. Em novembro de 2025, ajuizou ação civil pública contra a Santa Casa, o Governo do Estado e a Prefeitura de Campo Grande. A Justiça determinou a elaboração de um plano para garantir a continuidade dos atendimentos e estabeleceu multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento.

Em dezembro daquele mesmo ano, um acordo de R$ 54,1 milhões ajudou a colocar em dia pagamentos de profissionais que acumulavam mais de seis meses de atrasos contratuais.

Parecia uma saída.

Mas não foi.

Agora, em agosto de 2026, o Ministério Público novamente precisou convocar reuniões emergenciais porque a ameaça de interrupção de serviços voltou a rondar a Santa Casa.

E essa é a pergunta que não quer calar: o que foi feito, de fato, para impedir que a crise voltasse?

Porque não é possível que uma instituição dessa importância precise chegar ao limite para que Estado, Prefeitura, Ministério Público e direção hospitalar se sentem à mesa.

A saúde pública não pode funcionar no modelo do “apaga incêndio”.

Primeiro aparece a falta de dinheiro. Depois faltam medicamentos. Em seguida faltam insumos. O atendimento começa a ser comprometido. O Ministério Público intervém. A Justiça determina providências. Surge um acordo. O dinheiro chega. A crise diminui.

E algum tempo depois, tudo começa novamente.

Isso não é solução. É sobrevivência.

E quem acaba pagando a conta dessa sobrevivência é justamente quem menos pode pagar: o cidadão.

O paciente que chega ao hospital não quer saber quem deixou de repassar, quem não recebeu ou quem não conseguiu equilibrar as contas. Ele quer ser atendido.

Quem está com dor não pode esperar uma negociação financeira.

Quem precisa de cirurgia não pode depender de uma discussão sobre quem vai pagar pelo material.

Quem chega ao Pronto-Socorro não pode ser tratado como parte de uma planilha.

É por isso que a crise da Santa Casa precisa ser tratada com a seriedade que merece.

A direção do hospital precisa explicar suas dificuldades e apresentar soluções. O Governo do Estado precisa cumprir seu papel. A Prefeitura de Campo Grande também precisa assumir suas responsabilidades dentro daquilo que lhe compete.

E o dinheiro público precisa ser acompanhado com transparência.

Não basta colocar dinheiro para tapar o buraco. É preciso saber por que o buraco continua aparecendo.

O Ministério Público tem feito sua parte ao acompanhar o caso e buscar soluções. Mas também é preciso dizer que não pode ser normal o MPMS precisar atuar repetidamente como mediador de uma crise que deveria estar sendo administrada pelos gestores responsáveis.

Da mesma forma, a judicialização não pode se transformar em ferramenta permanente de gestão da saúde.

A Justiça deve ser o último recurso, não o mecanismo utilizado para fazer o básico acontecer.

Campo Grande precisa de respostas.

Quanto custa manter os serviços? Quanto Estado e município repassam? Quais são as dívidas? Onde estão os gargalos? Qual é o plano para evitar uma nova crise daqui a alguns meses?

A sociedade tem o direito de saber.

Porque estamos falando de dinheiro público, de contratos públicos e, acima de tudo, de vidas humanas.

A Santa Casa não pode ser lembrada apenas quando está em crise.

É preciso discutir sua sustentabilidade antes que faltem medicamentos, antes que faltem materiais, antes que profissionais deixem de receber e antes que o paciente seja colocado diante de uma porta fechada.

O alerta já foi dado.

Mais de uma vez.

E talvez essa seja a parte mais grave de toda essa história: não é a primeira crise e não é a primeira intervenção.

Por isso, Estado, Prefeitura e Santa Casa precisam parar de administrar o problema depois que ele aparece e começar a construir uma solução antes que ele volte a explodir.

Porque quando uma crise financeira ameaça o funcionamento de um hospital, a conta pode até estar nos números, mas o prejuízo pode estar na vida de alguém.

E, nesse caso, não existe acordo que consiga devolver o que foi perdido.

Até quando o SUS vai esperar por uma solução?